Todos os dias que tinha que ir para a escola cumpria a sua rotina. Acordava com o despertador quase a cair ao chão. Levantava-se com muito esforço. Ia a dormir para a banheira e a dormir saía. Vestia a primeira coisa que encontrava no armário. Calçava os seus ténis preferidos, os azuis. Dava um jeito no cabelo embaraçado. Comia a sua taça de cereais. Lavava os dentes. Pegava na sua mochila vermelha toda riscada e carregada com tudo menos o que era preciso para as aulas. Saía de casa sem sequer ver ninguém. Dirigia-se à paragem do autocarro e ficava à espera que o vento a levasse. Entrava no autocarro que a ia levar ao inferno. Aquele inferno onde não existiam chamas como se vê nos filmes. Era pior. Existiam pessoas capazes de tudo para proveito próprio. Ela tinha uma amiga. Uma no meio de 1000 alunos. Andavam sempre juntas. Ela era a única pessoa confiável naquele edifício. Contavam tudo uma à outra e tornaram-se como irmãs. Era a irmã mais velha que ela nunca teve. Ajudavam-se. Apoiavam-se. E aí passava mais um dia. Apanhava o autocarro que a ia levar para um inferno diferente. O inferno que ela não podia ignorar. A sua casa. A sua família. Chegava a casa e ia diretamente para o seu quarto. O seu cantinho. O lugar onde pairavam os seus sonhos e as suas fantasias. Onde escondia os seus medos. Onde segurava as lágrimas. Fechava-se mas não à chave. Colocava música e tentava estudar. Na hora de jantar, com muito sacrifício ia até à cozinha e senta-se à mesa com aqueles a que chama de família. A mãe puxava assunto e ela lá respondia. Sempre o mesmo. "Como correu o dia?" , "As aulas estão a correr bem?". Coisas informais. Coisas nada normais numa família normal. Mas nesta era. Voltava para o quarto. Arranjava a mochila para o dia seguinte. Ligava a televisão para fazer barulho de fundo. Lavava os dentes outra vez. Vestia o pijama. Deitava-se na sua cama com os cobertores a abafarem a vida. Agarrava-se ao seu peluche de infância. O primeiro presente que ela se lembra de gostar. Prenda da avó. Dormia com esperança de não acordar.
Encontrei a saudade hoje e ela perguntou por ti. Perguntou pela nossa história, pelo amor. Senti-me vazia, sem luz. Vendo bem, isto ficou um tédio sem ti. Disse-lhe que não sabia de nada mas acabei relembrando momentos. Momentos teus, momentos nossos. Quando entravas em alguma divisão, parecia que trazias um amigo contigo, o sol. Todo o local se iluminava como o nascer do dia. Bastava um sorriso e tudo se concentrava em ti e tu sabias disso. Odiava quando estava no café com as minhas amigas, tu chegavas e elas deixavam de prestar atenção à nossa conversa. Tu sabias e mesmo assim continuavas a aparecer de surpresa só para me irritar. O riso campeão. Como eu passei a chamar. Aquela gargalhada que davas quando sabias que me estavas a tirar do sério. O riso que te passou a proteger. O riso que me ajudou a conhecer o teu sentido de humor. O riso que me desarmou muitas e muitas vezes. Aquele riso. O teu. Quando passeávamos pela cidade e tu tentavas dar-me a mão sabendo bem qu...
Comentários
Enviar um comentário